22.02.10

2

O telefone

 

 

 

Sentado na poltrona do metrô, Adonis vê a janela projetar o mundo de fora rapidamente, como num cinematógrafo, tão veloz quanto é capaz de ser o pensamento da maioria das pessoas. Mas não de todas, pensa ele. Sua cabeça pende pelo peso do cansaço, mas não é exatamente sono. É mais exaustão. Desde segunda feira não tem um sono decente. Aliás, faz cerca de dois anos que não sabe o que é dormir a noite toda. Geralmente dorme três ou quatro horas apenas por noite. São os fantasmas que lhe perseguem e lhe roubam o sono, como dizem os antigos indígenas dos contos de sua avó, num passado tão remoto que quase ganha aspecto de lenda, como as próprias histórias que ouvia.

Vó Marie está morta e enterrada em Santa Luzia, e isso é longe demais de qualquer lugar que seu dinheiro possa levá-lo, ou suas folgas permitiriam. Não que ele queira ir visitá-la. O que encontraria lá? Um túmulo cinza e feio de cimento, uma foto desbotada emoldurada em madeira já podre, ervas e mato que só serão capinados pela boa vontade do coveiro?

Em Santa Luzia descansa um amontoado de ossos, não a Avó Marie. É o que sempre diz a si mesmo quando a saudade aperta ou a consciência se amotina. E geralmente se convence disso.

As luzes passam zunindo pelo túnel escuro, fazendo aquele barulho ritmado do balanço do metrô. As luzes apagam e acendem rapidamente algumas vezes, fazendo-o pescar com a consciência a percepção da realidade. Essas fisgadas de consciência são constantes quando não se dorme tanto quanto deveria. E desde segunda tem sido assim, o quadro de insônia tem piorado exponencialmente.

Dormir. Quantas vezes isso é tudo o que queremos? Apenas dormir. Apenas apagar, deixar Morpheus nos conduzir pelos caminhos do Sonhar, nas linhas subliminares da mente, vagar por emaranhados corredores oníricos enquanto o corpo repousa seguro no sofá da sala, a TV chiando a programação que já saiu do ar e você nem percebeu?

Dormir é tudo o que Adonis precisa neste momento. O médico receitou exercícios. Mas queimar energia não tem funcionado como deveria. Adonis está sim ficando exausto, mas tudo o que a doce Noite lhe agracia são essas fisgadas, breves cochilos entre um balançar e outro do metrô.

Já reparou como tudo no mundo fica absurdamente surreal quando se está sem dormir por algum tempo? Nada é real, nada é sólido e palpável. Depois de duas noites sem dormir, a passagem do tempo perde completamente o sentido. O dia e as noites se tornam sucessões de horas e giros no relógio de pulso. É como se o despertador apitasse sempre antes de você pegar no sono.

O vagão chacoalha sombriamente vazio, piscando rapidamente. Apenas um mendigo dormia num banco mais adiante, coberto por uma folha de jornal aberta, sem se importar com um fantasma insone feito Adonis. O barulho é feio e assustador, e por mais que pegue esse mesmo metrô todos os dias, ainda não se acostumou a esse ruído, como se mil demônios batessem asas ao redor do vagão.

Nesse horário ele está quase sempre vazio. Vez ou outra algum noctívago como ele, mas quem pegaria um metrô às 11 e meia da noite num mundo violento como esse? As pessoas geralmente estão trancadas e seguras atrás de seus sistemas de segurança numa hora dessas.

Depois do trabalho, Adonis passou na videolocadora e alugou quatro filmes. Dois franceses e um italiano, mais um Made in Hollywood, safra de 80. Uma boa safra. Ainda passou num bar no centro, onde esteve até agora à pedido de Jeferson, que queria lhe apresentar uma colegial ninfomaníaca, ou algo assim. Ela não veio, ou não conseguiu convencer o segurança com sua identidade falsa. O fato é que, sem ânimo para dançar, Adonis passou o tempo todo conversando com o colega de trabalho, ouvindo-o contar sobre a escatologia da cópula humana com riqueza doentia de detalhes. Estranhamente, ele parece até gostar diso: Alguém que o distraia.

As luzes piscavam velozes e fortes em todas as direções da boate, multiplicando na pista de dança os corpos e rostos que dançavam. A verdade é que, recostado ao balcão e bebericando uma dose de martíni, Adonis não ouviu uma palavra sequer de tudo o que o colega ruivo dissera.

Agora são onze e trinta e sete, o vagão trepida, a mente divaga e a cabeça pesca mais um cochilo. O trem pareceu estar cheio de gente no momento em que a luz piscou novamente, pois o som das engrenagens e rodas, mesclado ao chiado dos cabos e lâmpadas, pareceu um burburinho de vozes.

Adonis abre os olhos espantado, limpando a saliva do canto da boca. Um vento horripilante atravessou o vagão funereamente vazio. Apenas o mendigo acomodado na poltrona, enrolado em suas más notícias. A respiração de Adonis está acelerada e descompassada. Ouviu vozes, risos, conversas. E agora só o ronco baixo dos trilhos.

Quando não se dorme direito fica difícil saber se está acordado ou dormindo. A noção de realidade fica suspensa por um tempo, até seu cérebro apagar de vez. Já teve esta sensação, de não saber se está acordado ou dormindo? Quando se perde a noção do tempo e do estado da consciência, dá pra saber se essa fisgada foi o início ou o fim do cochilo?

A porta se abre como uma gilhotina ao contrário, e Adonis desce. A estação parece vazia, silenciosa. O ar fedia a urina e lixo. Aos poucos, se aproxima dele a conclusão de que não dá pra viver assim por muito tempo.

A porta se fecha atrás de si e o metrô vai se movendo até sumir no túnel escuro. Essa sensação angustiante de solidão que se encontra em locais espaçosos e vazios.

Ia sair logo dali e ganhar as escadas da rua, mas algo o chama a atenção no piso sujo. Um folheto colorido de papel. Adonis se abaixa para pegar. Quando seus dedos tocam com firmeza a folha meio pisoteada, uma voz irrompe na escuridão a seu lado:

_É o acalanto dessa nossa sociedade individualista de merda, cara. A ilusão da ajuda em grupo.

Seus olhos se voltam instantaneamente na direção da voz masculina, não tão grave quanto a sua própria, mas ainda assim bastante adulta.

O cara estava sentado num banco da estação, usando uma jaqueta de basquete e um óculos de lentes avermelhadas. Um sorriso plástico de quem se divertiu muito por ter lhe assustado.

Só então Adonis volta a olhar para o folheto em suas mãos. Era o folder de uma apresentação musical. Marie Sparks, uma cantora de country music, aparentemente. A apresentação aconteceria na sede do Grupo de Apoio para Câncer de Útero.

O cara não parecia estar armado, mas era forte o suficiente para roubá-lo de mãos limpas.

_Cara, você está com uma aparência péssima. As coisas parecem que vão mal na sua vida.

_Desculpa, eu lhe conheço?

_Imagino que não – diz o homem, se levantando do banco num salto enérgico _Mas isso é normal. Ninguém conhece ninguém numa cidade grande. Meu nome é Jason Morris, mas meus amigos me chamam de Pee. Eu odeio esse apelido e odeio vegetais, sou do signo de câncer e detesto livros de auto-ajuda. Moro numa casa pequena há duas quadras daqui e meu programa preferido é sentar neste banco da estação central todas as noites. Pelo menos aqui ninguém percebe que eu existo. Não tenho ficha criminal, mas isso não quer dizer que não tenha ido parar numa delegacia uma ou duas vezes. E tenho um sinal de nascença na parte interna da coxa esquerda, mas suponho que isso você não queira saber.

O homem disse tudo isso enquanto estendia a mão direita para Adonis. A mão do sujeito ficou alguns segundos parada no ar até Adonis recobrar o raciocínio. Aperta a mão do estranho, num misto de espanto e confusão.

_Não se ofenda, mas você está mesmo muito magro. Foi tocado pela Aids?

_Não!

_Eu disse pra não se ofender. Mas sabe como são as coisas. A Aids foi uma forma que o governo encontrou de controlar as massas. O boom da doença nos anos oitenta, em plena comoção que foi aquela belle époque...

_Acontece que... bom, eu tenho alguns problemas – responde Adonis, imediatamente se recriminando por estar se explicando para um sujeito estranho que está conversando numa estação vazia de metrô em pleno início de madrugada numa cidade violenta.

_Drogas, então? Parece droga. Meu primo fuma crack. Parece uma vara de bambú de tão seco. Mas foi mal aí, não se ofenda. Eu sei que não é da minha conta se você usa drogas.

_Mas eu não uso drog... porra, quem é você?

_Já disse, Jason Morris. Mas meus amigos me chamam de Pee.

_Pee?

_É, Pee.

Adonis olha abobalhado para a cara do sujeito, obviamente um louco. Mas por alguma razão alheia ao seu entendimento, continuou com aquele diálogo absurdo.

_Então você gosta de ficar aqui... neste banco... nas noites de sexta?

_Não faz sentido?

_Não.

_Aqui ninguém me reconhece. As pessoas entram e saem apressadas do metrô, dezenas de pessoas. Gosto de metrôs. E aqui na cidade nua, você pode morrer num desses vagões que ninguém repara em você. É bem capaz de você rodar mortinho o dia inteiro e só te repararem quando começar a feder.

_Cidade Nua?

_Essa cidade está nua, compadre. Nuazinha. E ninguém vai protegê-la do frio.

Adonis sorri. De certo modo, acha que entendeu o que o sujeito quis dizer. Mas aquilo tudo soa tão sem propósito que achou melhor cair fora antes do demente começar a uivar pra lua.

Sorriu amavelmente com um arco de dentes que dizia “Tchau, foi um prazer trocar idéias loucas com você, mas preciso ir”. Deu as costas e colocou-se a andar rumo às escadas rolantes. Mas a voz sombriamente sóbria lhe chamou mais uma vez:

_Você não me disse seu nome, estranho.

Ele se volta e coloca o cigarro na boca. Pee permanecia em pé e indignado, como se Adonis cometesse falta grave nos tratos sociais.

_Adonis. Meu nome é Adonis. Eu não tenho apelido porque não tenho amigos. Não amigos que colocam apelidos, se é que me entende.

_Entendo. Seus amigos são do tipo que correm por aí feito ratinhos de laboratório. Seus amigos são do tipo que não param para fazer amigos.

Adonis deixa o fósforo queimar a ponta do cigarro por alguns segundos antes de tragar. Isso é fantástico, um maluco no metrô que definiu exatamente um pouco do que ele próprio gostaria de dizer.

_É isso mesmo, Pee. Ninguém pára pra nada. Foi um prazer lhe conhecer.

Após dizer isso, Adonis mais uma vez começa a andar na direção da saída, mas o sujeito não parou de falar. Dava pra ouvir os passos seguindo-o pela plataforma vazia:

_É o que disse. Você morre no vagão e ninguém percebe até você começar a feder. Quer dizer, só quando se torna um problema, saca? Por isso eu decidi ser anônimo, por isso eu gosto de ficar por aqui nas madrugadas. As pessoas acham que sou um mendigo, elas me enxergam como um mendigo, e mendigos não tem nomes, são só mendigos. Mendigos são anônimos, tá me entendendo? Elas não enxergam os mendigos.

Ele é louco, pensa Adonis, mas de fato não reparou na sua presença quando desembarcou do metrô. Quando chegou perto das catracas, Adonis vira-se repentinamente, tomando de assalto o cara que vinha falando bem atrás de si. Pee salta para trás como um felino arisco, sem entender a reação brusca de Adonis.

_Está me seguindo? Não vai ficar na estação a noite toda?

_Não estou lhe seguindo, cara. Só estou conversando. Você é quem saiu andando.

_Cara... – Adonis respira fundo, procurando filtrar na garganta as palavras que usaria _Eu não quero lhe ofender nem nada, não é absolutamente nada pessoal... Mas não estou muito a fim de fazer novas amizades. Já estou feliz com as que eu não tenho.

Pee abateu-se sobremaneira, banhando seu rosto em sombras de decepção. Mas logo abriu outra vez o sorriso. Adonis se viu refletido nos óculos grandes e avermelhados que o estranho usava. Sua aparência está realmente péssima, de fato aparentando-o a um soropositivo.

O sujeito enfia a mão no bolso interno da jaqueta, Adonis recua um passo instintivamente. Talvez tenha se enganado sobre ele estar desarmado.

_Toma aqui, esse é meu cartão – estende na ponta dos dedos um pedaço de papel sujo e amassado, recortado no formato quadrangular de um cartão de visitas _Me ligue quando estiver a fim de trocar umas idéias, andar de metrô ou comer uma pizza. Desde que não tenha nada vegetal. Já disse que detesto vegetais?

Adonis pega o “cartão” e sorri meio desajeitado, indisfarçavelmente sem graça. Por que achou que ele ia tirar uma arma e meter-lhe no peito duas balas, aqui, em pleno metrô? Iria roubar o quê? 14 contos e quatro filmes B? Que ladrão roubaria de um sujeito que parece ainda mais fodido que ele?

O pedaço de papel estava manuscrito com uma letra rabiscada onde se lia seu nome, Pee, e o número de um telefone fixo. Só isso. Nenhuma definição ou título, nenhuma dica do que ele era, ou para quê. Apenas um apelido e um número escritos com esferográfica azul.

_Obrigado – agradece sem tirar os olhos das letras corridas. Pee sorri amavelmente e se volta para o banco, falando alguma coisa que Adonis não consegue ouvir porque outro metrô acabara de chegar.

Guardando o papel no bolso do jeans, Adonis dá uma última olhada para o banco perto da plataforma. E antes que as escadas rolantes o levasse para a rua, Adonis viu as portas do metrô se abrirem ao mesmo tempo, saindo um grupo de jovens alegres e um senhor vestindo um casaco de lã.

Nenhum dos passageiros reparou que Pee estava lá.

 

 

 

 

 

publicado por Felipe Lacerda às 20:38

 

Se você está lendo esse Livro é porque quis, e é digno informar que o conteúdo do mesmo tende aos extremos, exageros de uma mente que busca a liberdade das amarras do tempo, não o tipo de pessoa que você encontra por aí, correndo atrás do relógio e das despesas, da loucura das cidades, dos detestáveis horários a cumprir. Esse é o manifesto do teórico e infundado movimento anti-dogmático, busca por carências sublimadas e teorias existenciais egoístas e conspiracionais. Prática amoral da arte de guerrilha e fundamentalismo introjetado. Esse é o estudo profético dos princípios divinos da autocontemplação e egoísmo absoluto, calcado no ócio e na não-observação do tempo. É o existir atemporal e   introspecto, a busca da inércia, a disfunção do dinamismo.

O TRATADO DO MOVIMENTO ACINÉTICO, Que contribui magistralmente ao processo genuíno de libertação caracterizado pela adoração ao SER A PRIORI, tão unicamente, ensimesmado e autocontemplativo, digno de toda adoração e reverência como sendo a única e verdadeira forma existente de                       DEUS.

 

      Adonis

 

1

A Puta

 

 

Essa é a história do homem que quis parar o mundo, por quê sabia que a insônia não é viver nem morrer. É subsistir  entre as duas coisas.

Mas pense bem: A cidade não pára. O mundo é cinético, eterno movimento. Imutável, irrefreável. É muito além do passeio do sol nos ponteiros do relógio. Algumas coisas são fatais. Sabemos disso quando nos deparamos com certas invariáveis.

Esta, por exemplo.  Em algum momento poderia presumir que nossa história terminaria assim? Com o braço estirado no banco do metrô, entre vômito e urina que não são seus, encolhido como um condenado, um cavaleiro errante que encontra o fim da estrada antes de chegar ao destino?

Sentado, abraçando a si mesmo, nos fundos de um metrô vazio e sujo, remoendo as memórias que já não sabe se aconteceram ou se são apenas a notável imaginação de um homem não tão notável assim.  

Ao seu redor, ao redor do metrô, a cidade tem o maior orgasmo de toda a sua história.

O ar finalmente estava parado.

E assim, como quem teve uma brilhante idéia, ele deixa-se ir num calmo suspiro.

 

Mas não é assim que se começa uma história. É preciso compreender os fatos. Entender que a vida é um sopro, um átimo de tempo, só um vento, nada mais. E é tembém muito, muito mais que apenas isso.

Tente entender:

Adonis leu numa crônica do jornal de ontem, ou de hoje, que a insônia é subsistir entre o sonho e a realidade, é vegetar entre os dois. E o esguio sujeito não sabe porque essas palavras lhe tomaram a mente no momento em que sua cabeça se enfia na fria louça da privada. O corpo bastante magro expulsava em contrações o que não havia em seu estômago. Só um grotesco arroto e um gutural feio saía de sua garganta, aberta como uma cratera na ponta da cabeça. O suco gástrico lhe subiu à garganta, trazendo junto de si os restos de Rivotril. Minúsculas partículas brancas, meio amassadas, meio digeridas, boiando entre pedaços de um talharine fino e pálido. Quase tão pálido quanto o próprio Adonis, que se prostrou completamente no piso molhado do banheiro.

São cinco horas e trinta minutos de mais uma madrugada insone.

Sem se levantar, enfia a mão no bolso da bermuda e tira o maço de cigarros amassado. Restam cinco moídos Hollywoods lá dentro, meio surrados, filtro vermelho. O isqueiro meio enfiado entre o conteúdo do maço, um bic azul, pequeno, quase acabando o gás. Precisa comprar outro. Esse não deve durar até amanhã à noite.

Acende o cigarro quieto e calado, sentindo a umidade nas pernas. A garganta arde pelo suco gástrico que não deveria estar lá. Pigarreia um pouco, sentindo o gosto do tabaco encher sua língua de uma secura irritante. É como mascar areia.

A água está gelada, como sempre. Lava o rosto mais uma vez, a terceira vez essa noite. Os cabelos loiros desgrenhados na cara, tapando-lhe as olheiras profundas. Isso o reconforta. O que antes era por vaidade, agora o comprimento dos cabelos lisos lhe serve de abrigo. Pena seus cabelos não cobrirem o dorso nu, esquelético. Riu de si mesmo, posando frente ao espelho como uma múmia. As costelas podiam ser contadas uma a uma ao longo da caixa torácica. Sopra a fumaça devagar, observando o peito arquear, evidenciando a magreza ainda mais.

Apaga a luz, um clique audível demais num apartamento vazio como o seu.

Na cama, Perse ainda dormia serena e tranquila, como uma das criancinhas dos comerciais da TV. Mas Perse era uma mulher e estava longe demais da inocência pueril. O torneado das coxas sob o lençol bege fazia-o se lembrar de uma cadeia de montanhas que viu certa vez numa fotografia. Os fios negros que pendiam de sua cabeça se esparramavam volumosos pela cordilheira que era seu corpo, indo à altura dos seios, cessando ali seu serpentear. Como uma Valkyria, é o que diria em outros tempos.

Mas não esses tempos. Estes são tempos mais amargos e menos poéticos. E o contexto da prostituta dormindo em seu leito não sucinta nenhuma poesia, por mais que preferisse assim.

Ela sussurra adormecida, o procurando a seu lado. Adonis sopra a fumaça pra cima, se amaldiçoando por pentear o quarto com esse cheiro de cigarro que até ele detesta.

_Já acordado, Adonis? – geme Perse, abraçando o travesseiro sem abrir os olhos. Uma ausência numa cama preenche mais espaço que um corpo.

_Eu não dormi, Perse. Mas continue dormindo.

Ela apenas move os lábios em resposta, mas nenhuma palavra sai. Adonis entendeu apenas as palavras “onde” e “vai”, às quais o homem responde por cima dos ombros:

_Vou fazer o mundo parar, querida.

 

 

 

 

DOZE HORAS ANTES

 

A esteira da linha de montagem segue implacável, sem pausa nem arrego, como um tanque de guerra. E por diversas vezes, Adonis fantasia que ao invés de solas emborrachadas, seguissem por ali pares de membros amputados: Um par de braços, um par de pés, um par de olhos.

Levanta uma sola, passa cola ainda quente com o pincel e une com a costura do couro. Jeferson, usando um mesmo uniforme laranja dois metros adiante, apara as arestas e limpa o excedente de cola. Adonis, mecanicamente, faz o mesmo gesto com todos os pares da esteira, 9 horas por dia. Bate o cartão às 7. Cartão magnético, denunciador de atrasos. Os funcionários chamam o cartãozinho plástico de dedo-duro.

Levanta e cola. Coloca de novo no carrinho de suporte ao lado do pé esquerdo. Faz o mesmo com o esquerdo e devolve ao carrinho de suporte. Outro par e ele faz o mesmo. É preciso ser rápido. Jeferson apara as arestas e limpa o que sobrar da cola. A ponta da esteira não dá pra ver daqui, o que significa que ele não vê o tênis pronto. Vê apenas as caixas depois, já fechadas, em grandes caixas com 10 caixas, 10 pares. Enchem caminhões disso todos os dias. Chegou a contar quatro caminhões saírem da fábrica só essa manhã. Quantas caixas grandes dessa cabe num caminhão baú desses?

Umas cinquenta, talvez. Cinquenta vezes dez, quinhentos.

Quinhentos pares de sapatos por caminhão. Quatro caminhões somente essa manhã, dois mil pares de sapatos.

Levanta e cola. Encaixa no suporte de carrinho. Passa pelas mãos do Jeferson, que apara as sobras de cola e devolve para  a esteira, no sentido oposto. Vota ao aquecedor e some. Reaparece depois, já dentro das caixas.

Às vezes os carrinhos de suporte ficam presos dentro do túnel aquecedor porque o funcionário que retira os grampos da sola não colocou o carrinho bem alinhado na esteira, o que o obriga a agir rápido ou a esteira tem que ser parada para descongestionar os carrinhos. E toda vez que a esteira pára a produção atrasa, e toda vez que a produção atrasa o encarregado precisa culpar alguém.

Adonis age como um robô, seus gestos já são perfeitos e mecanizados pelo hábito. Não precisa mais ordenar que o cérebro faça. Isso deixa a mente livre para divagar, pensar, viajar para outros lugares. Mas ainda assim, os campos verdejantes que puder imaginar para correr livre ainda estarão com esse maldito cheiro forte de cola.

_...então, cara, eu estava com a mão na cintura dela, mirando o dito cujo, entende? – a voz de Jeferson golpeia a mente de Adonis como um avião a se chocar com torres gêmeas, pilotado por fanáticos semitas _... a vadia pedia para enfiar devagar, colocar só a cabeça... aí tu sabe o que eu fiz?

O olhar de Adonis se volta para o colega, esfregando as mãos sujas de cola seca no nariz.

_Eu enfiei até as bolas, véi! – vocifera, segurando a borda da esteira como se fosse o quadril da mulher _A vagabunda urrou como um porco!

Adonis apenas sorri. É o que sempre faz nas intermináveis narrativas sexuais de Jeferson com suas colegias descerebradas. E é o que faz sempre que o mundo o entedia - o que é quase sempre. Jeferson deve ter uns 22 anos, mas as espinhas na cara do ruivo o dariam uns 18, no máximo. E seu comportamento sexual reduziria isso a 16.

_E você, velho? Como anda seu lance com aquela vadia lá, tu ainda tá comendo ela de graça? – ele passa o carrinho para a esteira paralela, que seguia num sentido contrário, de volta ao aquecedor.

_Não é exatamente de graça – responde Adonis, passando a cola na sola e colando-a à costura de couro branco.

_A vagaba dorme na sua casa e dá pra você quase todo dia!

_São três vezes por semana. Segundas, quartas e sextas. E ela dorme na minha casa porque é minha amiga.

_Só você mesmo para namorar uma puta.

_Perse não é minha namorada, Jeferson.

_Mas é puta.

 

***

 

O cartão passou ligeiro pelo leitor, apitando agudo e baixinho. Onze horas da manhã, e tem até meio dia e meia nisso que a massa proletária chama ironicamente de horário de almoço.

Põe os pés na rua e acende um cigarro. Desce a rua da fábrica dois quarteirões até o açougue com o boi sorridente pintado na frente. Boi sorridente. Engraçado. Vira a esquerda no semáforo e sobe até a loja de ferramentas do velho japonês. Cumprimenta-o com um gesto amigável. O velho parece estar sempre sorrindo, sempre abrindo e fechando sua caixa registradora antiga, daquelas que fazem um barulho de sinos.

Sobe ainda mais, até o final da rua. A rodoviária desponta enorme ao final do morro, ônibus entrando e saindo o tempo todo. Passa pelos arcos gigantes da plataforma de embarque, uma ótima forma de cortar o caminho e evitar o aglomerado de pessoas dos guichês. Gente abarrotada de malas e sorrisos, falando alto. Alguns lendo e outros comendo salgadinhos. Geralmente bebem coca-cola ou outro refrigente em lata, com canudinhos longos e coloridos.

A lanchonete que procura fica dentro da rodoviária, atrás da banca de revistas. Pequena, meio escondida, meio suja e meio digna. Uma sensação de conforto, aquele conforto que se tem na sua própria cozinha, entre as vasilhas ainda sujas do jantar.

Entra sem conversar com ninguém, como faz todos os dias, e se senta ao balcão. Só então abre um sorriso, ao ver que a garçonete o viu. Seu nome é Sofia. Ao menos é isso o que diz a plaqueta em seu uniforme. Ele nunca teve coragem de perguntar nada, apesar de ser ela a única razão que o faz almoçar aqui todos os dias.

_Bom dia, senhor – ela sorri tão branca e tão viva que Adonis apenas sorri de volta um bom dia sincero, o único sincero do dia todo.

_Pode me servir uma...

_...Empada de frango e um café forte. Já sei, meu amigo. É o de sempre.

Ele sorri, tentando transparecer aquela amabilidade que está sentindo em algum ponto dentro de si. Mas não tem certeza se conseguiu.

A suposta Sofia volta com a empada, como se já estivesse aguardando ele chegar. O café vem fumegante, tirado naquele mesmo instante da máquina prata e grande no fundo da lanchonete. Um café amargo e preto demais, denso como as nuvens que ameaçam trovejar essa noite sobre a cidade. A fumaça sobe até seu rosto, trazendo o perfume do café recém-passado.

Sofia sorri docemente, alargando o sorriso mais nos olhos verdes que nos lábios vermelhos.

Ele coloca a faca de lado e abre o sachê de maionese, desenhando um rosto sério e soturno na torta. Um ritual repetido diariamente há cinco anos, nesse mesmo lugar, pelo mesmo motivo.

Porém, antes de cortar um pedaço e saciar a fome que não era pouca, Adonis retira do bolso uma cartela de comprimidos. Com o polegar expulsa dois, redondos e brancos. Coloca os dois na palma da mão e os leva à boca, bebendo o café quente por cima. Depois coloca a cartela de Rivotril de volta ao bolso do uniforme.

Só então come, em completo silêncio, sem tirar por nenhum segundo os olhos da garçonete Sofia, que às vezes sorri para ele ao sentir que está sendo observada. Mas na maior parte do tempo e na maioria dos dias, ela apenas continua seus afazeres sem notá-lo mais que o necessário.

Ao terminar o almoço, Adonis confirma se são RS2,50, mesmo fazendo isso todos os dias e já estar cansado de saber que o valor é mesmo esse. Mas pergunta, talvez apenas para ouví-la responder, sempre com aquele sorriso que não fica só nos dentes.

 

 

 

 

 

publicado por Felipe Lacerda às 20:24

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