22.02.10

 

Se você está lendo esse Livro é porque quis, e é digno informar que o conteúdo do mesmo tende aos extremos, exageros de uma mente que busca a liberdade das amarras do tempo, não o tipo de pessoa que você encontra por aí, correndo atrás do relógio e das despesas, da loucura das cidades, dos detestáveis horários a cumprir. Esse é o manifesto do teórico e infundado movimento anti-dogmático, busca por carências sublimadas e teorias existenciais egoístas e conspiracionais. Prática amoral da arte de guerrilha e fundamentalismo introjetado. Esse é o estudo profético dos princípios divinos da autocontemplação e egoísmo absoluto, calcado no ócio e na não-observação do tempo. É o existir atemporal e   introspecto, a busca da inércia, a disfunção do dinamismo.

O TRATADO DO MOVIMENTO ACINÉTICO, Que contribui magistralmente ao processo genuíno de libertação caracterizado pela adoração ao SER A PRIORI, tão unicamente, ensimesmado e autocontemplativo, digno de toda adoração e reverência como sendo a única e verdadeira forma existente de                       DEUS.

 

      Adonis

 

1

A Puta

 

 

Essa é a história do homem que quis parar o mundo, por quê sabia que a insônia não é viver nem morrer. É subsistir  entre as duas coisas.

Mas pense bem: A cidade não pára. O mundo é cinético, eterno movimento. Imutável, irrefreável. É muito além do passeio do sol nos ponteiros do relógio. Algumas coisas são fatais. Sabemos disso quando nos deparamos com certas invariáveis.

Esta, por exemplo.  Em algum momento poderia presumir que nossa história terminaria assim? Com o braço estirado no banco do metrô, entre vômito e urina que não são seus, encolhido como um condenado, um cavaleiro errante que encontra o fim da estrada antes de chegar ao destino?

Sentado, abraçando a si mesmo, nos fundos de um metrô vazio e sujo, remoendo as memórias que já não sabe se aconteceram ou se são apenas a notável imaginação de um homem não tão notável assim.  

Ao seu redor, ao redor do metrô, a cidade tem o maior orgasmo de toda a sua história.

O ar finalmente estava parado.

E assim, como quem teve uma brilhante idéia, ele deixa-se ir num calmo suspiro.

 

Mas não é assim que se começa uma história. É preciso compreender os fatos. Entender que a vida é um sopro, um átimo de tempo, só um vento, nada mais. E é tembém muito, muito mais que apenas isso.

Tente entender:

Adonis leu numa crônica do jornal de ontem, ou de hoje, que a insônia é subsistir entre o sonho e a realidade, é vegetar entre os dois. E o esguio sujeito não sabe porque essas palavras lhe tomaram a mente no momento em que sua cabeça se enfia na fria louça da privada. O corpo bastante magro expulsava em contrações o que não havia em seu estômago. Só um grotesco arroto e um gutural feio saía de sua garganta, aberta como uma cratera na ponta da cabeça. O suco gástrico lhe subiu à garganta, trazendo junto de si os restos de Rivotril. Minúsculas partículas brancas, meio amassadas, meio digeridas, boiando entre pedaços de um talharine fino e pálido. Quase tão pálido quanto o próprio Adonis, que se prostrou completamente no piso molhado do banheiro.

São cinco horas e trinta minutos de mais uma madrugada insone.

Sem se levantar, enfia a mão no bolso da bermuda e tira o maço de cigarros amassado. Restam cinco moídos Hollywoods lá dentro, meio surrados, filtro vermelho. O isqueiro meio enfiado entre o conteúdo do maço, um bic azul, pequeno, quase acabando o gás. Precisa comprar outro. Esse não deve durar até amanhã à noite.

Acende o cigarro quieto e calado, sentindo a umidade nas pernas. A garganta arde pelo suco gástrico que não deveria estar lá. Pigarreia um pouco, sentindo o gosto do tabaco encher sua língua de uma secura irritante. É como mascar areia.

A água está gelada, como sempre. Lava o rosto mais uma vez, a terceira vez essa noite. Os cabelos loiros desgrenhados na cara, tapando-lhe as olheiras profundas. Isso o reconforta. O que antes era por vaidade, agora o comprimento dos cabelos lisos lhe serve de abrigo. Pena seus cabelos não cobrirem o dorso nu, esquelético. Riu de si mesmo, posando frente ao espelho como uma múmia. As costelas podiam ser contadas uma a uma ao longo da caixa torácica. Sopra a fumaça devagar, observando o peito arquear, evidenciando a magreza ainda mais.

Apaga a luz, um clique audível demais num apartamento vazio como o seu.

Na cama, Perse ainda dormia serena e tranquila, como uma das criancinhas dos comerciais da TV. Mas Perse era uma mulher e estava longe demais da inocência pueril. O torneado das coxas sob o lençol bege fazia-o se lembrar de uma cadeia de montanhas que viu certa vez numa fotografia. Os fios negros que pendiam de sua cabeça se esparramavam volumosos pela cordilheira que era seu corpo, indo à altura dos seios, cessando ali seu serpentear. Como uma Valkyria, é o que diria em outros tempos.

Mas não esses tempos. Estes são tempos mais amargos e menos poéticos. E o contexto da prostituta dormindo em seu leito não sucinta nenhuma poesia, por mais que preferisse assim.

Ela sussurra adormecida, o procurando a seu lado. Adonis sopra a fumaça pra cima, se amaldiçoando por pentear o quarto com esse cheiro de cigarro que até ele detesta.

_Já acordado, Adonis? – geme Perse, abraçando o travesseiro sem abrir os olhos. Uma ausência numa cama preenche mais espaço que um corpo.

_Eu não dormi, Perse. Mas continue dormindo.

Ela apenas move os lábios em resposta, mas nenhuma palavra sai. Adonis entendeu apenas as palavras “onde” e “vai”, às quais o homem responde por cima dos ombros:

_Vou fazer o mundo parar, querida.

 

 

 

 

DOZE HORAS ANTES

 

A esteira da linha de montagem segue implacável, sem pausa nem arrego, como um tanque de guerra. E por diversas vezes, Adonis fantasia que ao invés de solas emborrachadas, seguissem por ali pares de membros amputados: Um par de braços, um par de pés, um par de olhos.

Levanta uma sola, passa cola ainda quente com o pincel e une com a costura do couro. Jeferson, usando um mesmo uniforme laranja dois metros adiante, apara as arestas e limpa o excedente de cola. Adonis, mecanicamente, faz o mesmo gesto com todos os pares da esteira, 9 horas por dia. Bate o cartão às 7. Cartão magnético, denunciador de atrasos. Os funcionários chamam o cartãozinho plástico de dedo-duro.

Levanta e cola. Coloca de novo no carrinho de suporte ao lado do pé esquerdo. Faz o mesmo com o esquerdo e devolve ao carrinho de suporte. Outro par e ele faz o mesmo. É preciso ser rápido. Jeferson apara as arestas e limpa o que sobrar da cola. A ponta da esteira não dá pra ver daqui, o que significa que ele não vê o tênis pronto. Vê apenas as caixas depois, já fechadas, em grandes caixas com 10 caixas, 10 pares. Enchem caminhões disso todos os dias. Chegou a contar quatro caminhões saírem da fábrica só essa manhã. Quantas caixas grandes dessa cabe num caminhão baú desses?

Umas cinquenta, talvez. Cinquenta vezes dez, quinhentos.

Quinhentos pares de sapatos por caminhão. Quatro caminhões somente essa manhã, dois mil pares de sapatos.

Levanta e cola. Encaixa no suporte de carrinho. Passa pelas mãos do Jeferson, que apara as sobras de cola e devolve para  a esteira, no sentido oposto. Vota ao aquecedor e some. Reaparece depois, já dentro das caixas.

Às vezes os carrinhos de suporte ficam presos dentro do túnel aquecedor porque o funcionário que retira os grampos da sola não colocou o carrinho bem alinhado na esteira, o que o obriga a agir rápido ou a esteira tem que ser parada para descongestionar os carrinhos. E toda vez que a esteira pára a produção atrasa, e toda vez que a produção atrasa o encarregado precisa culpar alguém.

Adonis age como um robô, seus gestos já são perfeitos e mecanizados pelo hábito. Não precisa mais ordenar que o cérebro faça. Isso deixa a mente livre para divagar, pensar, viajar para outros lugares. Mas ainda assim, os campos verdejantes que puder imaginar para correr livre ainda estarão com esse maldito cheiro forte de cola.

_...então, cara, eu estava com a mão na cintura dela, mirando o dito cujo, entende? – a voz de Jeferson golpeia a mente de Adonis como um avião a se chocar com torres gêmeas, pilotado por fanáticos semitas _... a vadia pedia para enfiar devagar, colocar só a cabeça... aí tu sabe o que eu fiz?

O olhar de Adonis se volta para o colega, esfregando as mãos sujas de cola seca no nariz.

_Eu enfiei até as bolas, véi! – vocifera, segurando a borda da esteira como se fosse o quadril da mulher _A vagabunda urrou como um porco!

Adonis apenas sorri. É o que sempre faz nas intermináveis narrativas sexuais de Jeferson com suas colegias descerebradas. E é o que faz sempre que o mundo o entedia - o que é quase sempre. Jeferson deve ter uns 22 anos, mas as espinhas na cara do ruivo o dariam uns 18, no máximo. E seu comportamento sexual reduziria isso a 16.

_E você, velho? Como anda seu lance com aquela vadia lá, tu ainda tá comendo ela de graça? – ele passa o carrinho para a esteira paralela, que seguia num sentido contrário, de volta ao aquecedor.

_Não é exatamente de graça – responde Adonis, passando a cola na sola e colando-a à costura de couro branco.

_A vagaba dorme na sua casa e dá pra você quase todo dia!

_São três vezes por semana. Segundas, quartas e sextas. E ela dorme na minha casa porque é minha amiga.

_Só você mesmo para namorar uma puta.

_Perse não é minha namorada, Jeferson.

_Mas é puta.

 

***

 

O cartão passou ligeiro pelo leitor, apitando agudo e baixinho. Onze horas da manhã, e tem até meio dia e meia nisso que a massa proletária chama ironicamente de horário de almoço.

Põe os pés na rua e acende um cigarro. Desce a rua da fábrica dois quarteirões até o açougue com o boi sorridente pintado na frente. Boi sorridente. Engraçado. Vira a esquerda no semáforo e sobe até a loja de ferramentas do velho japonês. Cumprimenta-o com um gesto amigável. O velho parece estar sempre sorrindo, sempre abrindo e fechando sua caixa registradora antiga, daquelas que fazem um barulho de sinos.

Sobe ainda mais, até o final da rua. A rodoviária desponta enorme ao final do morro, ônibus entrando e saindo o tempo todo. Passa pelos arcos gigantes da plataforma de embarque, uma ótima forma de cortar o caminho e evitar o aglomerado de pessoas dos guichês. Gente abarrotada de malas e sorrisos, falando alto. Alguns lendo e outros comendo salgadinhos. Geralmente bebem coca-cola ou outro refrigente em lata, com canudinhos longos e coloridos.

A lanchonete que procura fica dentro da rodoviária, atrás da banca de revistas. Pequena, meio escondida, meio suja e meio digna. Uma sensação de conforto, aquele conforto que se tem na sua própria cozinha, entre as vasilhas ainda sujas do jantar.

Entra sem conversar com ninguém, como faz todos os dias, e se senta ao balcão. Só então abre um sorriso, ao ver que a garçonete o viu. Seu nome é Sofia. Ao menos é isso o que diz a plaqueta em seu uniforme. Ele nunca teve coragem de perguntar nada, apesar de ser ela a única razão que o faz almoçar aqui todos os dias.

_Bom dia, senhor – ela sorri tão branca e tão viva que Adonis apenas sorri de volta um bom dia sincero, o único sincero do dia todo.

_Pode me servir uma...

_...Empada de frango e um café forte. Já sei, meu amigo. É o de sempre.

Ele sorri, tentando transparecer aquela amabilidade que está sentindo em algum ponto dentro de si. Mas não tem certeza se conseguiu.

A suposta Sofia volta com a empada, como se já estivesse aguardando ele chegar. O café vem fumegante, tirado naquele mesmo instante da máquina prata e grande no fundo da lanchonete. Um café amargo e preto demais, denso como as nuvens que ameaçam trovejar essa noite sobre a cidade. A fumaça sobe até seu rosto, trazendo o perfume do café recém-passado.

Sofia sorri docemente, alargando o sorriso mais nos olhos verdes que nos lábios vermelhos.

Ele coloca a faca de lado e abre o sachê de maionese, desenhando um rosto sério e soturno na torta. Um ritual repetido diariamente há cinco anos, nesse mesmo lugar, pelo mesmo motivo.

Porém, antes de cortar um pedaço e saciar a fome que não era pouca, Adonis retira do bolso uma cartela de comprimidos. Com o polegar expulsa dois, redondos e brancos. Coloca os dois na palma da mão e os leva à boca, bebendo o café quente por cima. Depois coloca a cartela de Rivotril de volta ao bolso do uniforme.

Só então come, em completo silêncio, sem tirar por nenhum segundo os olhos da garçonete Sofia, que às vezes sorri para ele ao sentir que está sendo observada. Mas na maior parte do tempo e na maioria dos dias, ela apenas continua seus afazeres sem notá-lo mais que o necessário.

Ao terminar o almoço, Adonis confirma se são RS2,50, mesmo fazendo isso todos os dias e já estar cansado de saber que o valor é mesmo esse. Mas pergunta, talvez apenas para ouví-la responder, sempre com aquele sorriso que não fica só nos dentes.

 

 

 

 

 

publicado por Felipe Lacerda às 20:24

mais sobre mim
Fevereiro 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
23
24
25
26
27

28


arquivos
2010:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


pesquisar
 
blogs SAPO