22.02.10

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O telefone

 

 

 

Sentado na poltrona do metrô, Adonis vê a janela projetar o mundo de fora rapidamente, como num cinematógrafo, tão veloz quanto é capaz de ser o pensamento da maioria das pessoas. Mas não de todas, pensa ele. Sua cabeça pende pelo peso do cansaço, mas não é exatamente sono. É mais exaustão. Desde segunda feira não tem um sono decente. Aliás, faz cerca de dois anos que não sabe o que é dormir a noite toda. Geralmente dorme três ou quatro horas apenas por noite. São os fantasmas que lhe perseguem e lhe roubam o sono, como dizem os antigos indígenas dos contos de sua avó, num passado tão remoto que quase ganha aspecto de lenda, como as próprias histórias que ouvia.

Vó Marie está morta e enterrada em Santa Luzia, e isso é longe demais de qualquer lugar que seu dinheiro possa levá-lo, ou suas folgas permitiriam. Não que ele queira ir visitá-la. O que encontraria lá? Um túmulo cinza e feio de cimento, uma foto desbotada emoldurada em madeira já podre, ervas e mato que só serão capinados pela boa vontade do coveiro?

Em Santa Luzia descansa um amontoado de ossos, não a Avó Marie. É o que sempre diz a si mesmo quando a saudade aperta ou a consciência se amotina. E geralmente se convence disso.

As luzes passam zunindo pelo túnel escuro, fazendo aquele barulho ritmado do balanço do metrô. As luzes apagam e acendem rapidamente algumas vezes, fazendo-o pescar com a consciência a percepção da realidade. Essas fisgadas de consciência são constantes quando não se dorme tanto quanto deveria. E desde segunda tem sido assim, o quadro de insônia tem piorado exponencialmente.

Dormir. Quantas vezes isso é tudo o que queremos? Apenas dormir. Apenas apagar, deixar Morpheus nos conduzir pelos caminhos do Sonhar, nas linhas subliminares da mente, vagar por emaranhados corredores oníricos enquanto o corpo repousa seguro no sofá da sala, a TV chiando a programação que já saiu do ar e você nem percebeu?

Dormir é tudo o que Adonis precisa neste momento. O médico receitou exercícios. Mas queimar energia não tem funcionado como deveria. Adonis está sim ficando exausto, mas tudo o que a doce Noite lhe agracia são essas fisgadas, breves cochilos entre um balançar e outro do metrô.

Já reparou como tudo no mundo fica absurdamente surreal quando se está sem dormir por algum tempo? Nada é real, nada é sólido e palpável. Depois de duas noites sem dormir, a passagem do tempo perde completamente o sentido. O dia e as noites se tornam sucessões de horas e giros no relógio de pulso. É como se o despertador apitasse sempre antes de você pegar no sono.

O vagão chacoalha sombriamente vazio, piscando rapidamente. Apenas um mendigo dormia num banco mais adiante, coberto por uma folha de jornal aberta, sem se importar com um fantasma insone feito Adonis. O barulho é feio e assustador, e por mais que pegue esse mesmo metrô todos os dias, ainda não se acostumou a esse ruído, como se mil demônios batessem asas ao redor do vagão.

Nesse horário ele está quase sempre vazio. Vez ou outra algum noctívago como ele, mas quem pegaria um metrô às 11 e meia da noite num mundo violento como esse? As pessoas geralmente estão trancadas e seguras atrás de seus sistemas de segurança numa hora dessas.

Depois do trabalho, Adonis passou na videolocadora e alugou quatro filmes. Dois franceses e um italiano, mais um Made in Hollywood, safra de 80. Uma boa safra. Ainda passou num bar no centro, onde esteve até agora à pedido de Jeferson, que queria lhe apresentar uma colegial ninfomaníaca, ou algo assim. Ela não veio, ou não conseguiu convencer o segurança com sua identidade falsa. O fato é que, sem ânimo para dançar, Adonis passou o tempo todo conversando com o colega de trabalho, ouvindo-o contar sobre a escatologia da cópula humana com riqueza doentia de detalhes. Estranhamente, ele parece até gostar diso: Alguém que o distraia.

As luzes piscavam velozes e fortes em todas as direções da boate, multiplicando na pista de dança os corpos e rostos que dançavam. A verdade é que, recostado ao balcão e bebericando uma dose de martíni, Adonis não ouviu uma palavra sequer de tudo o que o colega ruivo dissera.

Agora são onze e trinta e sete, o vagão trepida, a mente divaga e a cabeça pesca mais um cochilo. O trem pareceu estar cheio de gente no momento em que a luz piscou novamente, pois o som das engrenagens e rodas, mesclado ao chiado dos cabos e lâmpadas, pareceu um burburinho de vozes.

Adonis abre os olhos espantado, limpando a saliva do canto da boca. Um vento horripilante atravessou o vagão funereamente vazio. Apenas o mendigo acomodado na poltrona, enrolado em suas más notícias. A respiração de Adonis está acelerada e descompassada. Ouviu vozes, risos, conversas. E agora só o ronco baixo dos trilhos.

Quando não se dorme direito fica difícil saber se está acordado ou dormindo. A noção de realidade fica suspensa por um tempo, até seu cérebro apagar de vez. Já teve esta sensação, de não saber se está acordado ou dormindo? Quando se perde a noção do tempo e do estado da consciência, dá pra saber se essa fisgada foi o início ou o fim do cochilo?

A porta se abre como uma gilhotina ao contrário, e Adonis desce. A estação parece vazia, silenciosa. O ar fedia a urina e lixo. Aos poucos, se aproxima dele a conclusão de que não dá pra viver assim por muito tempo.

A porta se fecha atrás de si e o metrô vai se movendo até sumir no túnel escuro. Essa sensação angustiante de solidão que se encontra em locais espaçosos e vazios.

Ia sair logo dali e ganhar as escadas da rua, mas algo o chama a atenção no piso sujo. Um folheto colorido de papel. Adonis se abaixa para pegar. Quando seus dedos tocam com firmeza a folha meio pisoteada, uma voz irrompe na escuridão a seu lado:

_É o acalanto dessa nossa sociedade individualista de merda, cara. A ilusão da ajuda em grupo.

Seus olhos se voltam instantaneamente na direção da voz masculina, não tão grave quanto a sua própria, mas ainda assim bastante adulta.

O cara estava sentado num banco da estação, usando uma jaqueta de basquete e um óculos de lentes avermelhadas. Um sorriso plástico de quem se divertiu muito por ter lhe assustado.

Só então Adonis volta a olhar para o folheto em suas mãos. Era o folder de uma apresentação musical. Marie Sparks, uma cantora de country music, aparentemente. A apresentação aconteceria na sede do Grupo de Apoio para Câncer de Útero.

O cara não parecia estar armado, mas era forte o suficiente para roubá-lo de mãos limpas.

_Cara, você está com uma aparência péssima. As coisas parecem que vão mal na sua vida.

_Desculpa, eu lhe conheço?

_Imagino que não – diz o homem, se levantando do banco num salto enérgico _Mas isso é normal. Ninguém conhece ninguém numa cidade grande. Meu nome é Jason Morris, mas meus amigos me chamam de Pee. Eu odeio esse apelido e odeio vegetais, sou do signo de câncer e detesto livros de auto-ajuda. Moro numa casa pequena há duas quadras daqui e meu programa preferido é sentar neste banco da estação central todas as noites. Pelo menos aqui ninguém percebe que eu existo. Não tenho ficha criminal, mas isso não quer dizer que não tenha ido parar numa delegacia uma ou duas vezes. E tenho um sinal de nascença na parte interna da coxa esquerda, mas suponho que isso você não queira saber.

O homem disse tudo isso enquanto estendia a mão direita para Adonis. A mão do sujeito ficou alguns segundos parada no ar até Adonis recobrar o raciocínio. Aperta a mão do estranho, num misto de espanto e confusão.

_Não se ofenda, mas você está mesmo muito magro. Foi tocado pela Aids?

_Não!

_Eu disse pra não se ofender. Mas sabe como são as coisas. A Aids foi uma forma que o governo encontrou de controlar as massas. O boom da doença nos anos oitenta, em plena comoção que foi aquela belle époque...

_Acontece que... bom, eu tenho alguns problemas – responde Adonis, imediatamente se recriminando por estar se explicando para um sujeito estranho que está conversando numa estação vazia de metrô em pleno início de madrugada numa cidade violenta.

_Drogas, então? Parece droga. Meu primo fuma crack. Parece uma vara de bambú de tão seco. Mas foi mal aí, não se ofenda. Eu sei que não é da minha conta se você usa drogas.

_Mas eu não uso drog... porra, quem é você?

_Já disse, Jason Morris. Mas meus amigos me chamam de Pee.

_Pee?

_É, Pee.

Adonis olha abobalhado para a cara do sujeito, obviamente um louco. Mas por alguma razão alheia ao seu entendimento, continuou com aquele diálogo absurdo.

_Então você gosta de ficar aqui... neste banco... nas noites de sexta?

_Não faz sentido?

_Não.

_Aqui ninguém me reconhece. As pessoas entram e saem apressadas do metrô, dezenas de pessoas. Gosto de metrôs. E aqui na cidade nua, você pode morrer num desses vagões que ninguém repara em você. É bem capaz de você rodar mortinho o dia inteiro e só te repararem quando começar a feder.

_Cidade Nua?

_Essa cidade está nua, compadre. Nuazinha. E ninguém vai protegê-la do frio.

Adonis sorri. De certo modo, acha que entendeu o que o sujeito quis dizer. Mas aquilo tudo soa tão sem propósito que achou melhor cair fora antes do demente começar a uivar pra lua.

Sorriu amavelmente com um arco de dentes que dizia “Tchau, foi um prazer trocar idéias loucas com você, mas preciso ir”. Deu as costas e colocou-se a andar rumo às escadas rolantes. Mas a voz sombriamente sóbria lhe chamou mais uma vez:

_Você não me disse seu nome, estranho.

Ele se volta e coloca o cigarro na boca. Pee permanecia em pé e indignado, como se Adonis cometesse falta grave nos tratos sociais.

_Adonis. Meu nome é Adonis. Eu não tenho apelido porque não tenho amigos. Não amigos que colocam apelidos, se é que me entende.

_Entendo. Seus amigos são do tipo que correm por aí feito ratinhos de laboratório. Seus amigos são do tipo que não param para fazer amigos.

Adonis deixa o fósforo queimar a ponta do cigarro por alguns segundos antes de tragar. Isso é fantástico, um maluco no metrô que definiu exatamente um pouco do que ele próprio gostaria de dizer.

_É isso mesmo, Pee. Ninguém pára pra nada. Foi um prazer lhe conhecer.

Após dizer isso, Adonis mais uma vez começa a andar na direção da saída, mas o sujeito não parou de falar. Dava pra ouvir os passos seguindo-o pela plataforma vazia:

_É o que disse. Você morre no vagão e ninguém percebe até você começar a feder. Quer dizer, só quando se torna um problema, saca? Por isso eu decidi ser anônimo, por isso eu gosto de ficar por aqui nas madrugadas. As pessoas acham que sou um mendigo, elas me enxergam como um mendigo, e mendigos não tem nomes, são só mendigos. Mendigos são anônimos, tá me entendendo? Elas não enxergam os mendigos.

Ele é louco, pensa Adonis, mas de fato não reparou na sua presença quando desembarcou do metrô. Quando chegou perto das catracas, Adonis vira-se repentinamente, tomando de assalto o cara que vinha falando bem atrás de si. Pee salta para trás como um felino arisco, sem entender a reação brusca de Adonis.

_Está me seguindo? Não vai ficar na estação a noite toda?

_Não estou lhe seguindo, cara. Só estou conversando. Você é quem saiu andando.

_Cara... – Adonis respira fundo, procurando filtrar na garganta as palavras que usaria _Eu não quero lhe ofender nem nada, não é absolutamente nada pessoal... Mas não estou muito a fim de fazer novas amizades. Já estou feliz com as que eu não tenho.

Pee abateu-se sobremaneira, banhando seu rosto em sombras de decepção. Mas logo abriu outra vez o sorriso. Adonis se viu refletido nos óculos grandes e avermelhados que o estranho usava. Sua aparência está realmente péssima, de fato aparentando-o a um soropositivo.

O sujeito enfia a mão no bolso interno da jaqueta, Adonis recua um passo instintivamente. Talvez tenha se enganado sobre ele estar desarmado.

_Toma aqui, esse é meu cartão – estende na ponta dos dedos um pedaço de papel sujo e amassado, recortado no formato quadrangular de um cartão de visitas _Me ligue quando estiver a fim de trocar umas idéias, andar de metrô ou comer uma pizza. Desde que não tenha nada vegetal. Já disse que detesto vegetais?

Adonis pega o “cartão” e sorri meio desajeitado, indisfarçavelmente sem graça. Por que achou que ele ia tirar uma arma e meter-lhe no peito duas balas, aqui, em pleno metrô? Iria roubar o quê? 14 contos e quatro filmes B? Que ladrão roubaria de um sujeito que parece ainda mais fodido que ele?

O pedaço de papel estava manuscrito com uma letra rabiscada onde se lia seu nome, Pee, e o número de um telefone fixo. Só isso. Nenhuma definição ou título, nenhuma dica do que ele era, ou para quê. Apenas um apelido e um número escritos com esferográfica azul.

_Obrigado – agradece sem tirar os olhos das letras corridas. Pee sorri amavelmente e se volta para o banco, falando alguma coisa que Adonis não consegue ouvir porque outro metrô acabara de chegar.

Guardando o papel no bolso do jeans, Adonis dá uma última olhada para o banco perto da plataforma. E antes que as escadas rolantes o levasse para a rua, Adonis viu as portas do metrô se abrirem ao mesmo tempo, saindo um grupo de jovens alegres e um senhor vestindo um casaco de lã.

Nenhum dos passageiros reparou que Pee estava lá.

 

 

 

 

 

publicado por Felipe Lacerda às 20:38

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